quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O homem é diferente do poeta.

Na literatura, temos vários exemplos de como a obra do escritor não condiz com seu estilo de vida. Temos Machado de Assis,a obra machadiana é cercada por casamentos mau sucedidos e cheios de hipocrisia mas na vida real,segundo relatos,Machado de Assis foi muito feliz em seu casamento. Mas na verdade o que me fez escrever esse post foi o exemplo dado pela minha professora de literatura sobre Olavo Bilac. Numa época dentro do realismo,onde o assunto para as produções literárias eram as questões sociais,houve um grupo de poetas (os parnasianos) que não estavam nem aí pra escrever sobre isso,um deles era Olavo Bilac. Mas minha professora falou que apesar dele não escrever sobre causas sociais estava diretamente ligado a elas. Então ela disse a frase que é o titulo da postagem "o homem é diferente do poeta". Então eu resolvi discutir sobre isso porque tudo que eu escrevo é sempre diretamente ligado à minha vida,as coisas que sinto,que penso. Gosto de dizer por isso,que minhas poesias são trechos do meu coração. Então se um dia te perguntarem se o homem é diferente do poeta, lembre-se que varia muito.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Alma minha gentil, que te partiste

Camões é o maior poeta lírico do classicismo português. No seguinte soneto percebemos a sua genialidade em combinar a forma rígida do classicismo com o tema do amor platonico de um jeito comovente. Ele usa o eufemismo para se referir à morte ("Repousa lá no Céu eternamente) , a amada foi transcedentalizada no verso "Se lá no assento etéreo, onde subiste".


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta sida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou
(Camões)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Ismália

Este é um poema simbolista como podemos perceber pelo subjetivismo, a descrição de Ismália faz nos sentirmos como num sonho, a personagem transporta-se para outra realidade que é o transedentalismo, além da preferência pela sugestão por exemplo: percebemos que Ismália se atirou da torre, se suicidou, mas o poeta descreve esse fato de maneira tão vaga e imprecisa que os não acostumados com poesia talvez precisem ler mais de uma vez para interpretar.


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
(Alphonsus de Guimaraens)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Adeus, meus sonhos

Álvares de Azevedo é meu poeta favorito porque sempre que eu preciso, eu leio um verso dele e sinto como se tivesse sido escrito pra mim é como se ele realmente soubesse o que está se passando, como se me entendesse.



Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!... morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!


(Álvares de Azevedo)

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Soneto de fidelidade

Eu assisti à reprise do show do Roberto Carlos em Jerusalém e em uma música ele declamava um poema que é esse abaixo, já conhecia o poema mas agora estou postando no blog, o poema intercalado com a música era realmente de arrepiar.


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicuis de Morais)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Quando falo contigo, no meu peito

Um dos meus favoritos do meu querido Álvares de Azevedo, como o poema é extenso só vou postar as quadras que eu mais gosto e pessoalmente dizem bastante sobre mim, espero que apreciem esta obra maravilhosa.

Quando falo contigo, no meu peito
Esquece-me esta dor que me consome:
Talvez corre o prazer nas fibras d’alma:
E eu ouso ainda murmurar teu nome!

Que existência, mulher! se tu souberas
A dor de coração do teu amante,
E os ais que pela noite, no silêncio,
Arquejam no seu peito delirante!
(...)
Sou um doudo talvez de assim amar-te,
De murchar minha vida no delírio...
Se nos sonhos de amor nunca tremeste,
Sonhando meu amor e meu martírio...

E não pude, febril e de joelhos,
Com a mente abrasada e consumida,
Contar-te as esperanças do meu peito
E as doces ilusões de minha vida!

Oh! quando eu te fitei, sedento e louco,
Teu olhar que meus sonhos alumia,
Eu não sei se era vida o que minh’alma
Enlevava de amor e adormecia!
(...)
Adeus! Rasgou-se a página saudosa
Que teu porvir de amor no meu fundia,
Gelou-se no meu sangue moribundo
Essa gota final de que eu vivia!

Adeus, anjo de amor! tu não mentiste!
Foi minha essa ilusão e o sonho ardente:
Sinto que morrerei... tu, dorme e sonha
No amor dos anjos, pálido inocente!

Mas um dia... se a nódoa da existência
Murchar teu cálix orvalhoso e cheio,
Flor que respirei, que amei sonhando,
Tem saudade de mim, que eu te pranteio!



(Álvares de Azevedo)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A pensativa

Esse é um trecho da poesia "A pensativa"de Almeida Freitas (1828-1892). Poeta baiano (meu conterrâneo) que fez parte junto com Álvares de Azevedo da fase do ultrarromantismo brasileiro. Almeida Freitas Viveu louco muitos anos.





"Só um olhar por compaixão te peço,
Um olhar...mas bem lânguido, bem terno...


Quero um olhar que me arrebate o siso,
Me queime o sangue, m´escureça os olhos,
Me torne delirante
!"
(Almeida Freitas)
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)