domingo, 8 de abril de 2012

Cecília Meireles

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

(Cecília Meireles)

Tomara (Vinicius de Moraes)

Tomara

Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz

E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...

(Vinicius de Moraes)

sábado, 7 de abril de 2012

As sem-razões do amor (Carlos Drummond de Andrade)


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade) 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Soneto do maior amor (Vinicius de Moraes)

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

(Vinicius de Moraes)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Soneto do amor-de-sempre (Jehová de Carvalho)

Poeta baiano, nasceu na cidade de Santa Maria da Vitória, mudou-se para Salvador e lá sua obra foi marcada pelos aspectos modernistas.

Amo-te mais que a noite em que concebes —
enquanto sonho — o fruto que sonhei;
Mais que meus pés os passos que eu já dei
e ama o teu ventre o fruto que recebes.

Mais que o semeador a sua messe;
mais do que a valva a seiva pura e certa;
mais que o amor vegetal a terra aberta
do grão que em cada semeadura cresce.

Amo-te sobre o tempo e sobre a vida,
sobre o que for minh'hora indefinida
de amar-te mais do que a razão me importe.

Não basta a aurora e sua mensagem rubra
p'ra que este amor marcado se descubra
e seja mais amor dentro da morte.


(Jehová de Carvalho in Um passo na noite,1969)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Budismo Moderno (Augusto dos Anjos)

Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!


Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!


Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;


Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo
!

(Augusto dos Anjos)

domingo, 1 de abril de 2012

Saudade (Pablo Neruda)

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

(Pablo Neruda)
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)