domingo, 3 de junho de 2012

Súplica (Miguel Torga)

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Hoje estive pesquisando um poema para postar aqui no blog e encontrei este site : http://www.astormentas.com/ , fui na barra lateral na seção poemas e escolhi "poema ao acaso", gosto de pegar um livro de poesia e abrir numa pagina qualquer assim como algumas pessoas fazem com a bíbla. Por acaso o poema que apareceu é de um poeta que estou estudando na escola: Miguel Torga, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, destacou-se na poesia e na prosa portuguesa, um dos representantes do presencismo (segunda geração do modernismo português). O Presencismo caracteriza-se pela emoção estética de suas obras, pelo predomínio da literatura psicológica, buscando sempre uma "literatura original, viva e espontânea".

sábado, 2 de junho de 2012

Vaidade, tudo vaidade! (António Nobre)


Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?


António Nobre é poeta português, nascido no Porto em 1867. Sua obra está incluida no ultra-romantismo e no simbolismo da geração finissecular do século XIX. Faleceu com apenas 33 anos vítima de tuberculose super romantico!.  Seus poemas influenciaram e serviram de inspiração para vários outros poetas, principalmente sua compatriota e minha queridíssima: Florbela Espanca, que escreveu o poema A Anto em homenagem a ele. Outra homenagem foi feita pelo brasileiro Manuel Bandeira no poema sugestivamente entitulado A António Nobre.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Quadras para Ele (Larissa Rocha)

Teus olhos são como dois sóis
são ainda mais brilhantes
teu olhos carinhosos, calmos e claros
que me arrancam suspiros delirantes.

teu peito carrega divinas volúpias
mais caloroso não há no mundo inteiro
e nem mais macio, suave de linho branco
quem dera toda noite fazê-lo meu travesseiro.

teus lábios são como a primavera
onde flores e aromas se abrem a mil
quando surge ali teu lindo sorriso
um belo presente de tua boca gentil.

(Larissa Rocha)


quarta-feira, 30 de maio de 2012

Camilo Castelo Branco


A outra metade

Quando este corpo meu esfacelado
Baixar á leiva húmida da cova,
Hão de os jornais carpir a infausta nova,
Taxando-me de sábio consumado.

Estalará na imprensa enorme brado,
Pedindo a ressurgência d’um Canova
Que a morta face em mármore renova
Para insculpir meu busto laureado.

E algum dos imbecis necrologistas,
Com soluçantes vozes de saudade,
Dirá em ricas frases nunca vistas:

“Esse génio imortal, rei dos artistas,
No céu pede ao Senhor que a outra metade
Reparta por vocês, ó jornalistas!”


Caros leitores, esta é uma pequena homenagem ao romancista, cronista e poeta português Camilo Castelo Branco. Sua obra é predominantemente romântica, um de seus romances mais conhecidos é Amor de Perdição e na poesia destacou-se Nas Trevas. E a frase na imagem acima, acredito que traduz a essência da poesia, quem escreve sabe =)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Rosas (Alphonsus de Guimarães)

Rosas que já vos fostes, desfolhadas
Por mãos também que Já foram, rosas
Suaves e tristes! Rosas que as amadas,
Mortas também, beijaram suspirosas...


Umas rubras e vãs, outras fanadas,
Mas cheias do calor das amorosas...
Sois aroma de almofadas silenciosas,
Onde dormiram tranças destrançadas.


Umas brancas, da cor das pobres freiras,
Outras cheias de viço de frescura,
Rosas primeiras, rosas derradeiras!


Ai! Quem melhor que vós, se a dor perdura,
Para coroar-me, rosas passageiras,
O sonho que se esvai na desventura ?
(Alphonsus de Guimarães)

quinta-feira, 17 de maio de 2012

17 de Maio (Larissa Rocha)

Para Marcelo, em seu aniversário.

Verei cair a noite saudosa
E pelo anjo que suspiro tremendo
Meu olhar se enche de pranto
E de amor vou padecendo.

Deito-me nessa solidão
Que a noite escura afoga e dor
Fecho os olhos e em silêncio
Te mando minhas juras de amor.


Em minhas noites sonho muito
As ternuras do meu amante e amigo
Sonho que sou tua querida
Sonho teus amores, meu bem, eu sonho contigo!


Penso delirante em beijar-te os lábios
Oh! Deixa-me repousar em teu peito
Sentir o aroma inebriante de teus cabelos...
A febre ardente me consome no leito!


Bem sabes que pálida aos teus pés vivo
És do céu a estrela mais brilhante
Levanto a ela meus olhos em pranto
Suspiro...és também a mais distante!



Assim na  solidão amo-te à distancia
E sonho, meu bem... ai como sonho!
Quando te procuro só encontro saudade
É o que me deixa com olhar tristonho.



E adoro-te tão apaixonadamente
Que ao fim da noite só tenho um desejo
Anjo de meus saudosos sonhos,
Trocaria minha vida por teu beijo!


Com o porvir da aurora, ao amanhecer
A manhã clara me lembra os olhos teus
Respiro os suaves aromas
Que emanam dos lábios seus.

(Larissa Rocha)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A minha resolução (Laurindo Rabelo)

O que fazes, ó minh'alma!
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!

Corre o ribeiro suave
Pela terra brandamente,
Se o plano condescendente
Dele se deixa regar;
Mas, se encontra algum tropeço
Que o leve curso lhe prive,
Busca logo outro declive,
Vai correr noutro lugar.

Segue o exemplo das águas,
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!


Nasce a planta, a planta cresce,
Vai contente vegetando,
Só por onde vai achando
Terra própria a seu viver;
Mas, se acaso a terra estéril
Às raízes lhe é veneno,
Ela vai noutro terreno
As raízes esconder.

Segue o exemplo da planta,
Coração, por que te agitas?
Coração, por que palpitas?
Por que palpitas em vão?
Se aquele que tanto adoras
Te despreza, como ingrato,
Coração, sê mais sensato,
Busca outro coração!

Saiba a ingrata que punir
Também sei tamanho agravo:
Se me trata como escravo,
Mostrarei que sou senhor;
Como as águas, como a planta,
Fugirei dessa homicida;
Quero dar a um'alma fida

Minha vida e meu amor.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)