Postagens

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia (Gregório de Matos)

Imagem
Neste poema Gregório de Matos reconhece a efemridade da vida e admite um paradoxo: a instabilidade do mundo como única circunstância constante.

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria. 


Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.

Indiferença (Guilherme de Almeida)

Imagem
Por muito tempo achei que o contrário de amor era ódio. Mas hoje entendo que vai muito além disso, o contrário do amor é indiferença! Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

Há quase um ano não 'screvo (Fernando Pessoa)

Imagem
Neste poema, Pessoa apresenta o fazer poético dissociado da meditação, ele se sente incapaz de escrever porque tem a mente pesada e seus poemas já não fluem livremente. Há quase um ano não screvo.
Pesada, a meditação
Torna-me alguém que não devo
Interromper na atenção.

Tenho saudades de mim,
De quando, de alma alheada,
Eu era não ser assim,
E os versos vinham de nada.

Hoje penso quanto faço,
Screvo sabendo o que digo...
Para quem desce do espaço
Este crepúsculo antigo?

Foi então que o encontro (Larissa Rocha)

Imagem
Foi então que o encontro
Subitamente virou desentendimento
Deixou na boca o gosto amargo
De tristeza e desalento.

E o que antes eram suspiros de deleite
Hoje são soluços de saudade,
Chegou ao fim nossa ilusão...
Despertamos para dura realidade.

“Não será sempre assim”, ele dissera.
Mas com a distância entre nós
Também, pudera!

Tudo acabou como dissabor
Só não acabou ainda
Oh não, o nosso amor!
Mais poemas meus em http://www.astormentas.com/PT/par/poemas/Larissa%20Rocha

Amor é síntese (Mário Quitana)

Imagem
Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.

Versos do dia

Imagem

Resíduo (Carlos Drummond de Andrade)

Imagem
(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo no queixo de tua filha. De teu áspero silêncio um pouco ficou, um pouco nos muros zangados, nas folhas, mudas, que sobem. Ficou um pouco de tudo no pires de porcelana, dragão partido, flor branca, ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato. (...) E de tudo fica um pouco. Oh abre os vidros de loção e abafa o insuportável mau cheiro da memória.