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Noite de saudade (Florbela Espanca)

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A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra, que inunda de amargura... E nem sequer a benção do luar A quis tornar divinamente pura... Ninguém vem atrás dela a acompanhar A sua dor que é cheia de tortura... E eu oiço a Noite imensa soluçar! E eu oiço soluçar a Noite escura! Porque és assim tão escura, assim tão triste?! é que, talvez, ó Noite, em ti existe Uma saudade igual à que eu contenho! Saudade que eu sei donde me vem... Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!... Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!

Versos do dia

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Poema: Flor de Ventura
Autor: Almeida Garrett

"Morrer de amor é uma beleza.
abandoná-lo é solidão" (Nando Reis)

Soneto de amor (José Régio)

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Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
José Régio foi escritor, historiador da literatura e principal teórico do grupo que ficou conhecido como Presencista (2ª geração do mordernismo português 1927-1940). Esses escritores não foram influenciados pelo espírito da ruptura com o passado que caracterizou a 1ª geração modernista portuguesa, portanto, este poema mostra um forte vínculo com a tradição finissecular do Simbolismo/Decadentismo. Rejeitando as propostas mais radicais do Orfismo e da denúncia social,…

Neologismo (Manuel Bandeira)

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Beijo pouco, falo menos ainda
Mas, invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana
Inventei, por exemplo o verbo teadorar
Intransitivo;
Teadoro, Teodora

Transforma-se o amador na cousa amada (Camões)

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Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
O vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Versos do dia

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Poema: O poeta pede a seu amor que lhe escreva
Autor: Federico García Lorca

Fui um doudo em sonhar tantos amores (Álvares de Azevedo)

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Fui um doudo em sonhar tantos amores... Que loucura, meu Deus! Em expandir-lhe aos pés, pobre insensato, Todos os sonhos meus! E ela, triste mulher, ela tão bela, Dos seus anos na flor, Por que havia sagrar pelos meus sonhos Um suspiro de amor? Um beijo — um beijo só! eu não pedia Senão um beijo seu E nas horas do amor e do silêncio Juntá-la ao peito meu! (..) Meus Deus! por que sonhei e assim por ela Perdi a noite ardente... Se devia acordar dessa esperança, E o sonho era demente?... Eu nada lhe pedi: ousei apenas Junto dela, à noitinha, Nos meus delírios apertar tremendo A sua mão na minha! (...) Mas vota ao menos no lembrar saudoso Um ai ao sonhador... Deus sabe se te amei!... Não te maldigo, Maldigo o meu amor!... Mas não... inda uma vez... Não posso ainda Dizer o eterno adeus E a sangue frio renegar dos sonhos E blasfemar de Deus! Oh! Fala-me de amor!... — eu quero crer-te Um momento sequer... E esperar na ventura e nos amores, Num olhar de mulher!