quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Obituário (Larissa Rocha)


Causa da morte: Melancolia profunda
Devido a um grave trauma de amor
Congelando todo sangue que o coração inunda
Levando embora tudo, exceto a dor!

 
Assim quero escrito em meu papel de morte:
Que por amor fui tirada da vida
Até me foi negada a sorte
De um beijo de despedida.

 
Preparem os documentos de antemão
Pois faz tempo que só o corpo me restou
Primeiro foi-se a calma, o riso e então,
Por fim a alma me abandonou...

 
Quando te vi, tive como certeza,
Desde aquele dia enlouqueci
E não pude mais enxergar com clareza...
Data da morte: dia em que te conheci !
 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Serenata (Cecília Meireles)

 
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Noite de saudade (Florbela Espanca)

 
A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quis tornar divinamente pura...
 
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
 
Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
 
Saudade que eu sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguém!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!
 
 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Versos do dia




















Poema: Flor de Ventura
Autor: Almeida Garrett

"Morrer de amor é uma beleza.
abandoná-lo é solidão" (Nando Reis)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Soneto de amor (José Régio)

 
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
 
José Régio foi escritor, historiador da literatura e principal teórico do grupo que ficou conhecido como Presencista (2ª geração do mordernismo português 1927-1940). Esses escritores não foram influenciados pelo espírito da ruptura com o passado que caracterizou a 1ª geração modernista portuguesa, portanto, este poema mostra um forte vínculo com a tradição finissecular do Simbolismo/Decadentismo. Rejeitando as propostas mais radicais do Orfismo e da denúncia social, José Régio cria uma litaratura mais introspectiva e individualista, voltada para o seu próprio "eu".
 
 
 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Neologismo (Manuel Bandeira)

 
Beijo pouco, falo menos ainda
Mas, invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana
Inventei, por exemplo o verbo teadorar
Intransitivo;
Teadoro, Teodora

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Transforma-se o amador na cousa amada (Camões)

 
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está ligada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
O vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)