sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Ao luar (Augusto dos Anjos)



Quando, à noite, o Infinito se levanta 
A luz do luar, pelos caminhos quedos 
Minha táctil intensidade é tanta 
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! 

Quebro a custódia dos sentidos tredos 
E a minha mão, dona, por fim, de quanta 
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos, 
Todas as coisas íntimas suplanta! 

Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado, 
Nos paroxismos da hiperestesia, 
O Infinitésimo e o Indeterminado... 

Transponho ousadamente o átomo rude 
E, transmudado em rutilância fria, 
Encho o Espaço com a minha plenitude! 

sábado, 28 de setembro de 2013

Meu coração (Larissa Rocha)



Meu coração é como um quarto abafado
Onde há muito tempo ninguém entra
O mesmo velho perfume impregnado
Onde a dor sempre se concentra

Mas de repente alguém abre uma janela
Deixa a brisa fresca renovar o ar
Deixa entrar a luz de uma manhã bela
Então pude novamente respirar

Alguém que trouxe de volta a esperança
Levou embora o a triste lembrança
Esse alguém talvez seja Ele...

Alguém que trouxe de volta a poesia
E me mostrou como aproveitar o dia
Esse alguém só pode ser Ele!

Flor Bela Rocha

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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Aos ombros dele (Larissa Rocha)


Nunca me canso de olhar admirada
As curvas tênues dos ombros dele,
O tom claro da sua pele,
Visão que me deixa hipnotizada 

É então que os desejos me consomem
Quando ele despe a camisa, e com o peito desnudo
Sou capaz de entregar-me em tudo
Aos músculos fortes dos ombros desse homem.

E o desejo tanto  que quase não resisto
À tentação de beijar essa fina película
Seguir com os lábios a linha da clavícula
Até o esterno, onde repousa uma medalha do cristo!



Vozes de um túmulo (Augusto dos anjos)



Morri! E a Terra - a mãe comum - o brilho 
Destes meus olhos apagou!... Assim 
Tântalo, aos reais convivas, num festim, 
Serviu as carnes do seu próprio filho! 

Por que para este cemitério vim?! 
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho 
Palmilhasse, do que este que palmilho 
E que me assombra, porque não tem fim! 

No ardor do sonho que o fronema exalta 
Construí de orgulho ênea pirâmide alta, 
Hoje, porém, que se desmoronou 

A pirâmide real do meu orgulho, 
Hoje que apenas sou matéria e entulho 
Tenho consciência de que nada sou! 

A efemeridade do ser humano por Augusto dos Anjos: 
Nos versos acima fica clara a visão do poeta sobre a sociedade e sobre si mesmo, o "poeta do horrível" nos brinda mais uma vez com sua linguagem ácida e cheia de escárnio. No soneto Vozes de um túmulo são expostas as fraquezas humanas "Construí de orgulho ênea pirâmide alta" em contraposição com o fatalismo da morte e a incapacidade de alcançar a parte mais profunda do ser "Tenho consciência de que nada sou!". Impregnado pelas ideias deterministas Augusto dos anjos concebe as mazelas humanas retratadas no poema à corrupção característica do espírito dos homens, portanto, criando para o leitor um cenário fúnebre e demasiadamente pessimista, o autor nos diz o quanto a carne é efêmera, certo de que na vida prevaleciam a matéria e a superficialidade, sentimentos puros só poderiam ser revelados a partir da morte.
- Larissa Rocha

Utilizado como referência o excelente texto de Aíla Sampaio: A poesia decadentista de Augusto dos Anjos (recomendo para quem quiser se aprofundar).

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Poema (Mário Cesariny)


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Minha crença (Larissa Rocha)



“Eu sou teu deus”, ele me disse certa vez,
Com um ar mais arrogante que bendito
E a verdade é que eu o adoro,
Ele é meu deus e é o único no qual acredito.

E foi assim que passei a crer nesse deus
Forte e onipotente, cálido e sensual,
Rogo-lhe para levar-me ao paraíso
Divino com gosto de pecado original

Sagrada seja a luz daqueles olhos!
Ele é meu maior pecado, e única salvação
Minha perdição é em seus beijos e abraços
E amá-lo tanto é minha vocação. 

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sábado, 3 de agosto de 2013

Sem remédio (Florbela Espanca)



Aqueles que me têm muito amor 
Não sabem o que sinto e o que sou... 
Não sabem que passou, um dia, a Dor 
À minha porta e, nesse dia, entrou. 

E é desde então que eu sinto este pavor, 
Este frio que anda em mim, e que gelou 
O que de bom me deu Nosso Senhor! 
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!! 

Sinto os passos de Dor, essa cadência 
Que é já tortura infinda, que é demência! 
Que é já vontade doida de gritar! 

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio, 
A mesma angústia funda, sem remédio, 
Andando atrás de mim, sem me largar! 

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)