quinta-feira, 24 de abril de 2014

Passou o outono (Camilo Pessanha)



Passou o outono já, já torna o frio...
- Outono de seu riso magoado.
Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado...
- O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
- E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...

quarta-feira, 26 de março de 2014

Ausência (Carlos Drummond de Andrade)


Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim.


segunda-feira, 24 de março de 2014

Ariel e Caliban (Larissa Rocha)



Um deles é o sopro de ar freso em perturbada mente,
O outro transforma em cinzas meu coração ardente
Um é o meu porto seguro, tranquilo e bondoso,
O outro é a inconstância de um mar revoltoso.

Como na Tempestade de Shakespeare, eles são
Assim tão diferentes, mas dividem meu coração 
Meu espírito é consumido por uma dúvida vã
E meu coração dividido entre Ariel e Caliban! 

Tua voz (Larissa Rocha)



Tua voz envolve meu corpo com um abraço
E quase posso sentir tua respiração quente
Falando ao meu ouvido, tua boca bem rente, 
É impossível sair deste laço… 

Tua voz pronuncia o nome meu
Saboreando cada sílaba… bem devagar
É como se ela estivesse a proclamar
Algo que sempre foi teu…

Tua voz rompe o silêncio da minha mente
E logo me vejo enlouquecida,
Por tua voz confortada e aquecida,
Não me esqueço dela por mais que eu tente. 

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)