quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Sou um evadido (Fernando Pessoa)



Sou um evadido.
Logo que nasci 
Fecharam-me em mim, 
Ah, mas eu fugi. 

 Se a gente se cansa 
Do mesmo lugar, 
Do mesmo ser 
Por que não se cansar? 

 Minha alma procura-me 
Mas eu ando a monte, 
Oxalá que ela 
Nunca me encontre. 

 Ser um é cadeia, 
Ser eu é não ser. 
Viverei fugindo 
Mas vivo a valer.

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Este poema, Pessoa faz uma reflexão filosófica: só é possível viver plenamente se libertando da carcaça do "eu". isso quer dizer que o ser nada mais é que uma prisão, e estar preso a esse ser imutável é o que impede o poeta de encontrar a verdadeira liberdade ("Do mesmo ser/ Por que não se cansar?").

Além disso, ele afirma "Ser um é cadeia,/ Ser eu é não ser", esse é seu argumento para buscar uma fuga dos limites do "eu", e nota-se que para ele, a própria tentativa de fugir de si mesmo já é sua grande conquista "Viverei fugindo/ Mas vivo a valer".

Refletindo sobre o que o poema nos tenta dizer, vemos que realmente nascemos dentro de cascas onde ficamos aprisionados, contentes com nossa zona de conforto, entretanto, ninguém é imutável, nossas experiências vão nos somando e nos fazendo ver as mesmas coisas sob perspectivas diferentes, sendo assim, a melhor saída para aproveitar completamente o que a vida nos oferece é quebrar as grades da cadeia do "ser" e estar sempre em movimento, para estar enfim, livre de si. 



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Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É minha maneira de estar sozinho.
(Fernando Pessoa)